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Lâmina GaúchaArte que corta, beleza que encanta

Lâmina com história Caso nº 1

Eu tenho essa tesoura de tosquia, com a descrição Juan Mailhos — Montevideu em uma lâmina e na outra um desenho de um soldadinho de chumbo. Sabem me explicar por que o soldadinho?

A tesoura de tosquia da Mailhos e o "soldadinho" que era um caçador

·Guilherme Solon da Costa

Duas fotos das folhas de uma tesoura de tosquia antiga, de aço escurecido e picado pela ferrugem: na de cima, o punção "JUAN M. MAILHOS / MONTEVIDEO" em duas linhas; na de baixo, a silhueta gasta de uma figura em pé.A peça
Foto: @milano80.369, dono da peça
Ficha da peça
Peça
Tesoura de tosquia de ovelhas, duas folhas, aço carbono
Marca punçoada
"JUAN M. MAILHOS / MONTEVIDEO", numa das folhas
A figura
Caçador apontando a espingarda, emblema da Armería del Cazador
Quem vendeu
Armaria J. M. Mailhos, rua 18 de Julio nº 15, Montevidéu
Quem fez
Fábrica inglesa, de Sheffield, provavelmente. Sem catálogo que confirme qual.
Época
Entre os anos 1880 e os anos 1920
O que concluímos

O "soldadinho" é o caçador da casa Mailhos. A tesoura é inglesa, vendida em Montevidéu com o nome do importador, de quando a tosquia ainda era a tesoura e a tesoura era do tosquiador.

Grau de certeza média

Esta é a primeira Lâmina com história, e ela não nasceu no direct. Nasceu num comentário, embaixo de um dos nossos posts, com a pergunta que está aí em cima.

Duas horas depois, o @dastrevasx respondeu:

“Na verdade é um caçador, símbolo da marca, conhecidas pelas variações como cazador al filo, cazador a la punta e armería del cazador.”

Captura de tela dos comentários no Instagram: a foto das duas folhas da tesoura e, abaixo, a resposta de @dastrevasx explicando que a figura é um caçador, símbolo da marca, conhecida pelas variações cazador al filo, cazador a la punta e armería del cazador A conversa como aconteceu, nos comentários do @lamina.gaucha. A pergunta do @milano80.369 e, duas horas depois, a resposta do @dastrevasx. É assim que a série funciona: quem sabe mais chega antes da gente.

Está certo. E a história por trás dessa resposta de duas linhas é boa demais para ficar enterrada num comentário.

O que está escrito na lâmina

Numa das folhas, em duas linhas punçoadas no aço: JUAN M. MAILHOS e, embaixo, MONTEVIDEO. A inicial do meio está gasta; na foto lê-se “M”, e é assim que o nome aparece em peças da mesma casa que passaram por leilão: Juan M. Mailhos, Montevideo.

Quem leu o artigo sobre a Mailhos já sabe o que esse nome significa: casa importadora, não fabricante. A Armería del Cazador, da rua 18 de Julio, foi fundada por volta de 1860 por Luis Mailhos Lavedan, um serralheiro dos Altos Pirineus. Não tinha forja. Tinha balcão, e o nome da família gravado no aço dos outros.

E aqui a tesoura ajuda a fechar uma ponta que o artigo deixou aberta. Lá, dissemos que as iniciais “J.M.” apareciam nas fontes ora ligadas a um Juan María, ora à gestão de Julio sobre o negócio do pai. A tesoura diz Juan, por extenso. Os registros de família dão a Luis e Narcisa quatro filhos, entre eles Julio (1855–1915), que foi para o tabaco e fez fortuna, e Juan María Mailhos Baleix, casado em Montevidéu em 1882. Tudo indica que foi Juan María quem ficou com a armaria quando o irmão saiu para o fumo, e que é o nome dele que está nesta lâmina.

O “soldadinho” é um caçador

Na outra folha, uma figura em pé, de perfil, com uma linha comprida saindo na diagonal. O dono da peça viu um soldadinho de chumbo. É uma leitura honesta: cem anos de ferrugem comem o desenho e sobra uma silhueta.

Mas a silhueta é a de um caçador apontando a espingarda. É o emblema da casa, o mesmo que aparece nas facas e facões que a Mailhos vendia. Era a marca de figura, para quem não sabia ler, como o sol, o estribo e a arvorezinha da Böker de que já falamos no artigo das marcas criollas.

Os apelidos que o @dastrevasx citou, “cazador al filo” e “cazador a la punta”, vêm da direção em que o caçador mira: para o fio ou para a ponta da lâmina. Em faca, isso ajuda a datar, porque as peças “al filo” são as importadas antigas e as “a la punta” vieram depois da Segunda Guerra. Numa tesoura o critério não transfere direto, porque não há “fio” no sentido de uma faca, mas a figura em si diz o essencial: saiu do balcão da Mailhos.

Uma tesoura inglesa com nome uruguaio

A Mailhos não fabricava faca, e tampouco fabricava tesoura. A tesoura de tosquia do século XIX era, antes de tudo, um produto de Sheffield.

A casa mais conhecida, a Burgon & Ball, faz tesoura de tosquia desde 1730. Em 1865 James Ball patenteou um processo de fabricação em aço maciço, e no auge a produção passou de 300 mil pares por ano, com exportação declarada para a América do Sul já em 1897. Outras casas da cidade, como Ward & Payne, disputavam o mesmo mercado.

O padrão do Prata era o mesmo das facas: o importador encomendava e a peça chegava com o nome dele gravado. Quem procurar hoje tesouras antigas no Uruguai vai achar o nome de Mailhos ao lado dos de Broqua & Scholberg e Varela Radio, as outras casas de Montevidéu, e ao lado da própria Burgon & Ball, que também vendia com o nome de fábrica.

Não achamos, nas fontes que consultamos, um catálogo que diga de qual fabricante inglês saíram as tesouras da Mailhos. Isso fica em aberto, e é o tipo de coisa que um leitor com um catálogo antigo da casa resolve numa mensagem.

De quando ela é

Sem catálogo e sem número de série, a datação é por cerco.

Juan María aparece como adulto em Montevidéu a partir dos anos 1880. A tesoura de mão reinou no campo uruguaio até a década de 1920, quando a máquina de tosquia se impôs de vez. A primeira máquina entrou no país em 1893, mas até a virada do século chegavam duas ou três por ano. Depois disso a tesoura de mão não desapareceu, mas deixou de ser a ferramenta de quem vivia disso.

Juntando as pontas: a peça deve ter sido vendida entre os anos 1880 e os anos 1920. Quarenta anos de margem, e é o melhor que a honestidade permite.

O que a tesoura conta sobre a tosquia

Esta parte vale mais do que a datação.

Fotografia de 1904 de um galpão de tosquia no Uruguai, com uma fileira de polias de ferro presas a um eixo no alto da parede de tijolos e baias de madeira embaixo O galpão de tosquia da estância Buen Retiro, em Paysandú, em 1904. O eixo e as polias no alto da parede acionavam as tesouras mecânicas. No mesmo ano em que esta foto foi tirada, a comparsa da foto de capa ainda tosquiava a mão.

Antes da máquina, a tosquia era a tarefa mais organizada do campo. Uma comparsa de tosquia tinha funções fixas: o agarrador pegava a ovelha no curral e a deixava maneada diante do tosquiador; o esquilador tirava o velo em cortes seguidos, de modo que a lã saísse inteira, como uma manta; o vellonero levava o velo e pagava ao tosquiador a sua tarja, uma ficha de metal que no fim do dia virava jornal; o atador enrolava, o embolsador prensava com os pés dentro do saco, e o barredor mantinha a cancha limpa e levava o remédio quando o corte pegava o animal. Em cima de todos, o capataz da comparsa.

Até 1880, nas estâncias uruguaias, davam tesoura também às mulheres que pedissem. Eram chamadas de “tijeras”. Há registro de uma que tosquiava cem ovelhas por dia.

E o detalhe que esta tesoura carrega: ela era do tosquiador. O sociólogo Emilio Fernández Rondoni, da Universidad de la República, descreve a chegada da máquina como um divórcio entre o trabalhador e a ferramenta. Com a tesoura de mão, o tosquiador era “patrão, ainda que só de si mesmo”, porque a ferramenta era dele. Com a máquina, a tesoura passou a ser do dono da estância ou do maquinista, e ele virou assalariado.

Uma tesoura como esta, com o nome da armaria de Montevidéu, foi comprada por alguém que vivia dela. Andou de estância em estância na primavera, foi afiada mil vezes, e foi guardada quando deixou de dar de comer.

O que ela virou depois

Hoje, no Uruguai e no Rio Grande, as tesouras antigas de tosquia que aparecem em galpão têm um destino conhecido: viram faca. O aço de Sheffield, depois de um século, ainda tempera bem, e há cuteleiro que trabalha quase só com elas.

É uma volta completa. A casa de Montevidéu vendia lâmina inglesa com nome uruguaio. Cem anos depois, um cuteleiro de fundo de quintal pega aquela mesma lâmina, forja, tempera, põe cabo e assina com o nome dele. Desta vez, o nome na faca é o de quem fez.

Se a tesoura desta história um dia virar faca, a gente quer saber.


Como participar da série

Lâmina com história é isto: uma peça antiga que está na sua casa, uma pergunta, e a gente tentando responder junto com quem lê. Não garantimos resposta. Garantimos que vamos procurar, e que o que acharmos sai publicado aqui, com o crédito de quem mandou.

Mande pelo direct do @lamina.gaucha uma foto da marca e uma do cabo, com luz rasante, de lado, para o relevo aparecer. Se souber de quem herdou, melhor ainda.

Créditos das imagens

Fontes

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Mande a sua. A gente procura junto.

Não garantimos resposta. Garantimos que vamos atrás, e que o que acharmos sai publicado aqui, com o seu crédito.

Mandar no direct
  1. Foto da marca de lado, com luz rasante, para o relevo aparecer
  2. Foto do cabo e da peça inteira, se der
  3. De quem herdou se souber. Uma linha já ajuda a datar