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Lâmina GaúchaArte que corta, beleza que encanta

·Guilherme Solon da Costa

Um sábado de forja com Sandro Boeck: a 12ª Vivência de Cutelaria pelos olhos do Ogro

No sábado, 17 de outubro, a Peixinho Moreno Cutelaria, de Paulo Ricardo Silva, recebeu em Barra do Ribeiro a 12ª Vivência de Cutelaria com Sandro Boeck, Journeyman Smith da ABS. Walter Fonseca, da Toca do Ogro, estava lá e mandou as fotos para contar como foi.

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Sandro Boeck, de avental de couro, aponta sorrindo para Walter Fonseca, que segura com as duas mãos uma faca de damasco com cabo claro, dentro da oficina.

No sábado, 17 de outubro, enquanto a maioria de nós descansava, uma turma de cuteleiros passou o dia num galpão de Barra do Ribeiro, a uma hora de Porto Alegre, de avental, entre forno, lixadeira e prensa hidráulica. Era a 12ª Vivência de Cutelaria, promovida por Paulo Ricardo Silva, da Peixinho Moreno Cutelaria, e ministrada por Sandro Boeck, um dos poucos brasileiros com o título de Journeyman Smith da American Bladesmith Society.

Entre os participantes estava Walter Fonseca, o Ogro, da Toca do Ogro, de Sapucaia do Sul, que tem página aqui no portal. Ele voltou para casa com o certificado e com o celular cheio de fotos. Mandou tudo para a gente, e este artigo é o que dá para contar a partir do que ele viu.

Sandro Boeck, de avental de couro e luvas, retira do forno uma lâmina incandescente, vermelha da ponta à espiga, enquanto dois participantes observam a poucos passos.

Quem é o mestre

Sandro Boeck é advogado de formação e cuteleiro por paixão, como ele mesmo se apresenta. Fez a primeira faca em 1997, montou a oficina na garagem de casa em 2005 e, em 2007, levou o prêmio de melhor iniciante na primeira feira de cutelaria de Nova Petrópolis. Mora no interior do Rio Grande do Sul, a uns 200 quilômetros de Porto Alegre.

Em 2015 ele passou pela prova que dá o “JS” que vem depois do nome dele no certificado: o título de Journeyman Smith da American Bladesmith Society, a ABS. É a mesma sociedade dos Master Smiths que o Rodrigo Sfreddo traz a Nova Petrópolis em novembro, e o mesmo caminho que Ricardo Vilar abriu para a América do Sul. Para chegar ao JS, a faca do candidato precisa cortar uma corda de uma polegada num golpe só, atravessar duas vezes uma tábua sem perder o fio e dobrar a 90 graus sem quebrar. Depois disso, cinco peças passam por uma banca de Master Smiths. No mesmo ano, Sandro recebeu o certificado de Maestro da Corporazione Italiana Coltellinai.

Em 2020 ele foi um dos quatro brasileiros da terceira temporada latino-americana do Desafio sob Fogo, o programa do History Channel que colocou a forja na televisão. Hoje, o que mais sai da oficina dele é damasco: padrões em W, turco e mosaico, além de outras peças forjadas. O trabalho está em facasboeck.com.br.

Sandro Boeck, de avental, encostado numa bancada de madeira com uma lâmina em branco na mão, explica alguma coisa à turma; ao fundo, uma lona azul e uma lixadeira pequena.

O que se fez no sábado

O certificado que o Walter trouxe resume o programa do dia em três frentes: desbaste básico, revelação do damasco e colagem do cabo. E diz mais uma coisa importante: a vivência deu continuidade ao projeto da faca começado na 7ª edição. Ou seja, não é um curso de um dia em que cada um faz uma faca do zero. É uma série em torno de uma peça só: é o mestre quem forja, cada encontro avança uma etapa, e a faca fica na oficina como símbolo de cada participação. Ninguém a leva para casa.

Faz sentido para damasco. Uma lâmina de aço de padrão não se resolve numa tarde: tem a forja dos pacotes, a dobra, o desbaste, a têmpera, e só então o banho de ácido que revela o desenho que estava escondido dentro do aço. Cada etapa pede o seu tempo, e o ensino por vivências distribui esse tempo em encontros.

Sandro Boeck no desbaste, de costas para a câmera, com um chuveiro de faíscas alaranjadas saindo da lixadeira de cinta e caindo no chão da oficina.

Nas fotos, a sequência aparece inteira. Sandro no desbaste, com as faíscas descendo em cortina sobre o avental. Sandro na lixadeira de cinta, uma Indmaq, ajustando o acabamento de uma lâmina ainda sem cabo. A lâmina saindo do forno no vermelho da têmpera, com o tubo de óleo esperando no chão. E Sandro levantando uma lâmina escura diante da turma, no gesto de quem está mostrando onde olhar.

Sandro Boeck de perfil, de óculos e avental, trabalha uma lâmina na lixadeira de cinta Indmaq; na parede, uma dúzia de cintas de lixa penduradas.

Sandro Boeck, cercado por participantes, ergue uma lâmina de damasco escurecida pelo ácido e aponta para ela com a outra mão, enquanto explica.

Duas lâminas descansam sobre um pano na bancada, já desbastadas e polidas, com a espiga nua à espera do cabo. É o retrato da etapa em que o dia terminou.

Duas lâminas polidas, ainda sem cabo, apoiadas sobre um pano escuro na bancada; a espiga de uma delas é roscada.

O Ogro na vivência

Walter conta na página dele que começou a fazer facas na pandemia, sozinho, vendo vídeos e acompanhando o Desafio sob Fogo. Com o tempo vieram os cursos e as vivências, que ele descreve com uma frase simples: sempre algum mestre passa adiante o que sabe. No sábado foi a vez de aprender com um cuteleiro que ele acompanhava pela televisão.

A foto que ele mais gostou de mandar é a de cima: Sandro apontando para ele, e ele segurando a faca de damasco com o cabo já colado. É a peça que vinha sendo feita desde a 7ª Vivência, agora inteira. A faca é do mestre, e vai ficar lá, na oficina, com as das vivências anteriores. O que o Walter trouxe dela foi o que aprendeu.

Sandro Boeck, de avental de couro, aponta sorrindo para Walter Fonseca, que segura com as duas mãos uma faca de damasco com cabo claro, em pé diante da bancada da oficina.

Para quem conhece o trabalho do Ogro, a cena tem um significado a mais. Walter faz questão de transformar sucata em peça funcional, de forjar mola, rolamento e suspensão, e de fazer tudo ele mesmo, da lâmina à bainha. Um dia inteiro com um Journeyman Smith no damasco é o tipo de coisa que muda a régua de quem trabalha no fundo do quintal, e é por isso que ele vai atrás.

Certificado da 12ª Vivência de Cutelaria em nome de Walter L. Fonseca de Oliveira, com a assinatura de Sandro Boeck e a data de 17 de outubro de 2026.

A casa

A Peixinho Moreno Cutelaria, de Paulo Ricardo Silva, em Barra do Ribeiro, que organiza as vivências, cedeu o galpão: prensa hidráulica Hidrauk com a marca da casa pintada na lateral, martelete pneumático, bigorna no cavalete e um forno de têmpera. É oficina de verdade, não sala de aula, e isso se nota na quantidade de máquina e na falta de cadeira.

Interior do galpão da Peixinho Moreno Cutelaria: bigorna sobre cavalete de ferro, martelete pneumático azul ao fundo, prensa hidráulica Hidrauk laranja com a marca da casa e compressor à esquerda.

Lá fora, debaixo de tendas armadas entre os eucaliptos, uma mesa de toalha vermelha reunia facas e a turma conversava em pé, do jeito que cuteleiro conversa quando se encontra. Era um sábado de campo, entre sol e nuvem, com um cordeiro já pendurado no galpão e a paisagem aberta atrás das árvores.

Grupo de participantes em pé debaixo de tendas montadas entre eucaliptos, ao redor de uma mesa com toalha vermelha coberta de facas; carros estacionados ao fundo.

No fim do dia, a turma inteira posou diante do galpão, com a bandeira do Rio Grande do Sul na janela, os certificados na mão e o cachorro da casa no meio. Foi mais de trinta gente, o que diz bastante sobre o tamanho que a cutelaria artesanal tomou por aqui.

Foto de grupo da 12ª Vivência de Cutelaria: mais de trinta participantes em pé e agachados diante do galpão de tijolos, alguns segurando certificados, com Sandro Boeck de avental ao centro, a bandeira do Rio Grande do Sul numa janela e um cão border collie na frente.

É assim que o ofício se passa adiante no Brasil hoje: menos em escola, mais em galpão, num sábado em que um mestre abre a oficina e mais de trinta pessoas aparecem para seguir a faca de onde ela parou.


Participou de uma vivência, um curso ou um encontro de cutelaria e tem fotos para contar como foi? Me mande. Foi assim que este artigo nasceu.

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