Um sábado de forja com Sandro Boeck: a 12ª Vivência de Cutelaria pelos olhos do Ogro
No sábado, 17 de outubro, a Peixinho Moreno Cutelaria, de Paulo Ricardo Silva, recebeu em Barra do Ribeiro a 12ª Vivência de Cutelaria com Sandro Boeck, Journeyman Smith da ABS. Walter Fonseca, da Toca do Ogro, estava lá e mandou as fotos para contar como foi.
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No sábado, 17 de outubro, enquanto a maioria de nós descansava, uma turma de cuteleiros passou o dia num galpão de Barra do Ribeiro, a uma hora de Porto Alegre, de avental, entre forno, lixadeira e prensa hidráulica. Era a 12ª Vivência de Cutelaria, promovida por Paulo Ricardo Silva, da Peixinho Moreno Cutelaria, e ministrada por Sandro Boeck, um dos poucos brasileiros com o título de Journeyman Smith da American Bladesmith Society.
Entre os participantes estava Walter Fonseca, o Ogro, da Toca do Ogro, de Sapucaia do Sul, que tem página aqui no portal. Ele voltou para casa com o certificado e com o celular cheio de fotos. Mandou tudo para a gente, e este artigo é o que dá para contar a partir do que ele viu.

Quem é o mestre
Sandro Boeck é advogado de formação e cuteleiro por paixão, como ele mesmo se apresenta. Fez a primeira faca em 1997, montou a oficina na garagem de casa em 2005 e, em 2007, levou o prêmio de melhor iniciante na primeira feira de cutelaria de Nova Petrópolis. Mora no interior do Rio Grande do Sul, a uns 200 quilômetros de Porto Alegre.
Em 2015 ele passou pela prova que dá o “JS” que vem depois do nome dele no certificado: o título de Journeyman Smith da American Bladesmith Society, a ABS. É a mesma sociedade dos Master Smiths que o Rodrigo Sfreddo traz a Nova Petrópolis em novembro, e o mesmo caminho que Ricardo Vilar abriu para a América do Sul. Para chegar ao JS, a faca do candidato precisa cortar uma corda de uma polegada num golpe só, atravessar duas vezes uma tábua sem perder o fio e dobrar a 90 graus sem quebrar. Depois disso, cinco peças passam por uma banca de Master Smiths. No mesmo ano, Sandro recebeu o certificado de Maestro da Corporazione Italiana Coltellinai.
Em 2020 ele foi um dos quatro brasileiros da terceira temporada latino-americana do Desafio sob Fogo, o programa do History Channel que colocou a forja na televisão. Hoje, o que mais sai da oficina dele é damasco: padrões em W, turco e mosaico, além de outras peças forjadas. O trabalho está em facasboeck.com.br.

O que se fez no sábado
O certificado que o Walter trouxe resume o programa do dia em três frentes: desbaste básico, revelação do damasco e colagem do cabo. E diz mais uma coisa importante: a vivência deu continuidade ao projeto da faca começado na 7ª edição. Ou seja, não é um curso de um dia em que cada um faz uma faca do zero. É uma série em torno de uma peça só: é o mestre quem forja, cada encontro avança uma etapa, e a faca fica na oficina como símbolo de cada participação. Ninguém a leva para casa.
Faz sentido para damasco. Uma lâmina de aço de padrão não se resolve numa tarde: tem a forja dos pacotes, a dobra, o desbaste, a têmpera, e só então o banho de ácido que revela o desenho que estava escondido dentro do aço. Cada etapa pede o seu tempo, e o ensino por vivências distribui esse tempo em encontros.

Nas fotos, a sequência aparece inteira. Sandro no desbaste, com as faíscas descendo em cortina sobre o avental. Sandro na lixadeira de cinta, uma Indmaq, ajustando o acabamento de uma lâmina ainda sem cabo. A lâmina saindo do forno no vermelho da têmpera, com o tubo de óleo esperando no chão. E Sandro levantando uma lâmina escura diante da turma, no gesto de quem está mostrando onde olhar.


Duas lâminas descansam sobre um pano na bancada, já desbastadas e polidas, com a espiga nua à espera do cabo. É o retrato da etapa em que o dia terminou.

O Ogro na vivência
Walter conta na página dele que começou a fazer facas na pandemia, sozinho, vendo vídeos e acompanhando o Desafio sob Fogo. Com o tempo vieram os cursos e as vivências, que ele descreve com uma frase simples: sempre algum mestre passa adiante o que sabe. No sábado foi a vez de aprender com um cuteleiro que ele acompanhava pela televisão.
A foto que ele mais gostou de mandar é a de cima: Sandro apontando para ele, e ele segurando a faca de damasco com o cabo já colado. É a peça que vinha sendo feita desde a 7ª Vivência, agora inteira. A faca é do mestre, e vai ficar lá, na oficina, com as das vivências anteriores. O que o Walter trouxe dela foi o que aprendeu.

Para quem conhece o trabalho do Ogro, a cena tem um significado a mais. Walter faz questão de transformar sucata em peça funcional, de forjar mola, rolamento e suspensão, e de fazer tudo ele mesmo, da lâmina à bainha. Um dia inteiro com um Journeyman Smith no damasco é o tipo de coisa que muda a régua de quem trabalha no fundo do quintal, e é por isso que ele vai atrás.

A casa
A Peixinho Moreno Cutelaria, de Paulo Ricardo Silva, em Barra do Ribeiro, que organiza as vivências, cedeu o galpão: prensa hidráulica Hidrauk com a marca da casa pintada na lateral, martelete pneumático, bigorna no cavalete e um forno de têmpera. É oficina de verdade, não sala de aula, e isso se nota na quantidade de máquina e na falta de cadeira.

Lá fora, debaixo de tendas armadas entre os eucaliptos, uma mesa de toalha vermelha reunia facas e a turma conversava em pé, do jeito que cuteleiro conversa quando se encontra. Era um sábado de campo, entre sol e nuvem, com um cordeiro já pendurado no galpão e a paisagem aberta atrás das árvores.

No fim do dia, a turma inteira posou diante do galpão, com a bandeira do Rio Grande do Sul na janela, os certificados na mão e o cachorro da casa no meio. Foi mais de trinta gente, o que diz bastante sobre o tamanho que a cutelaria artesanal tomou por aqui.

É assim que o ofício se passa adiante no Brasil hoje: menos em escola, mais em galpão, num sábado em que um mestre abre a oficina e mais de trinta pessoas aparecem para seguir a faca de onde ela parou.
Participou de uma vivência, um curso ou um encontro de cutelaria e tem fotos para contar como foi? Me mande. Foi assim que este artigo nasceu.
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